segunda-feira, 30 de novembro de 2009

Vem chegando o verão...

Rituais para o verão

As estações começam não com datas, mas com estados de espírito. Com vontades nascidas dos nossos cinco sentidos. Você vê uma flor que não estava ali, percebe o perfume da melancia na feira, saboreia um picolé, ouve os passarinhos e sente o sol na pele mesmo quando ele já se foi. Em algum momento, o verão chega. Não pelo calendário, mas dentro de você. Através do que você vê, ouve, sente ou prova.

Conheça uma série de rituais para sacudir a poeira e dar as boasvindas à estação mais luminosa do ano – todos sugeridos por escritores, músicos, artistas e gente com sensibilidade.

Limpar a casa

Cada um tem seu roteiro, mas uma coisa é certa: em determinado momento, não se sabe mais por onde terminar uma faxina. É dura, mas revigorante. Parece que, ao escancarar as janelas para receber o verão, os lares pedem um banho de alma, como o feito pela professora de história da arte Paula Ramos: “Entre minhas manias de verão está uma boa limpeza no escritório, na casa, em tudo. Começo separando papéis e escolho o que será descartado. Depois, consigo entrar no meu escritório com mais liberdade de movimentos. Aí, vou para o restante da casa: lavo cortinas e faço a faxina pesada”, relata. A fi gurinista Rô Cortinhas não poupa nem cobertores e edredons: “Também limpo e guardo o tapete da sala, e voltamos a pisar de pés descalços no piso de madeira”.

Descalçar os pés

Se tiver de escolher um objeto para dar adeus ao inverno, um forte candidato é o sapato fechado. Exibir os pés e rever seus dez dedos depois de tanto tempo é uma sensação indescritível. Livres, os pés querem aproveitar. Soltos e nus, eles vão para cima do sofá, se sujam de areia, se escondem no gramado. O escritor Fabrício Carpinejar propõe: “No verão, uso os pés para pegar coisas. Tente, é a alegria de garfar objetos do chão e testar a motricidade do corpo. A praia facilita a fisioterapia”.

Revirar o armário

A cada verão, o ritual se repete no quarto da professora Paula: “Abro o roupeiro e separo tudo o que não usei nos últimos três anos. Caso não tenha uma relação afetiva com a roupa ou o sapato, passo adiante. Minha casa é cheia de coisas, então, o verão representa efetivamente um período de limpeza, de tirar do meio do caminho o que não serve mais”. A atriz Camila Raffanti, da série Mothern, não apenas rearranja as peças do armário como também sai em busca do “uniforme” do verão: “Mando para o maleiro os casacos pesados que só atrapalham. Depois, saio atrás do vestido eleito para eu usar durante toda a estação, até enjoar!”

Usar pouca roupa

No verão, muita roupa atrapalha. Limita os movimentos. E verão é movimento. Tem roupa cujo tecido você não quer nem encostar quando o calor urge lá fora. A escritora Cíntia Moscovich é radical: “No verão, gosto de andar com pouquíssima roupa. Geralmente, só shortinho e camiseta cavada, tudo de algodão. E de Havaianas. Tomo vários banhos ao dia e adoro colocar camisolinhas bem folgadas de algodão. Tenho coleção de camisolinhas e Havaianas”, conta.

Sentir os aromas

Talvez o olfato sinalize mais fortemente o potencial sensorial do verão. O vizinho molha a grama e você sente o cheiro antes de ver a cena. Na caminhada diária, sente o perfume de uma flor onde antes só havia galhos e folhas. Além do cheiro de maresia na estrada rumo à praia. E o mais impressionante: “Sentir o sol na pele quando já é noite”, lembra a filósofa Viviane Mosé. Faça o teste: passe o dia recebendo seu calor e, à noite, leve o antebraço até o nariz e inspire fundo.

Beber muita água

Repare nas esquinas, junto aos semáforos. Mais sensíveis à oportunidade de lucro do que ao calor, os ambulantes oferecem o que parece ser a bebida dos deuses: água. Pode ser de coco, com hortelã, com gelo e limão. A artista plástica Lou Borghetti tem uma receita: “Num copo bonito, coloco água gelada com uma folhinha de manjericão ou um pauzinho de canela. No verão, adoro também apreciar o sabor da água pura e simples”.

Recordar

O ator Marcos Breda, que mora no Rio, onde faz calor o ano inteiro, associa o verão às corridas na praia. “Tenho um prazer imenso em correr quilômetros na beira do mar, tomar uma água-de-coco e depois dar um mergulho no mar de Ipanema”, conta. E ele percebe: algo muda quando a estação chega de fato. “Tem algo morno, tépido no ar que, por um segundo, me faz sentir como se eu tivesse 15 anos outra vez. Me lembro de uma namoradinha sapeca que tive numa praia do Sul. Não é à toa que o título daquele filme tem pinta de bordão: todo mundo sabe o que fez no verão passado”.

Ler sob a brisa

Pode ser na varanda de casa, no jardim ou num cantinho adaptado, na poltrona, na espreguiçadeira, na rede ou no chão. O fato é que ler sentindo a brisa fresca no rosto é um prazer diferente de ler debaixo do cobertor em frente à lareira. “Ler sob a sombra de uma árvore no verão é como levar sua alma para um piquenique”, define a jornalista Cláudia Laitano.

Reverenciar o sol

O ritual pode ser de manhã ou no final da tarde: a perspectiva de apreciar o sol antes ou depois do trabalho torna a labuta mais leve. A pedagoga Lídice Zaniratti deixa para a tarde o encontro prazeroso. “Corro das tarefas cotidianas para admirar o pôr-do-sol, a chegada das estrelas e da Lua. Pela janela do meu apartamento, gosto de ver as pessoas mais alegres e descontraídas na calçada.” A despedida do Sol também é o momento preferido do verão para a cantora e compositora Mart’nália, que se sente diante de um artista que acabou de se apresentar no palco: “No verão, só penso em passar o dia na praia, jogar frescobol e ver o pôr-dosol com amigos”, diz.

Fazer sua hora feliz

As happy hours não dependem de estação para ocorrer. Mas o verão exige outro cardápio e garante sempre a alternativa da mesa ao ar livre. O que importa mesmo é a companhia, a cumplicidade do momento. O estilista mineiro Ronaldo Fraga escolhe outro programa para o final da tarde, também considerado “hora feliz”: “Longe do litoral, no verão eu morro de saudade do entardecer na praia, o que nas outras estações não me faz falta alguma. Para compensar, pego a bicicleta e ando com os meus filhos desde o entardecer até a noite”.

Retomar idéias

A estação parece curta para tantas idéias que você tirou da gaveta só porque o dia amanheceu cedinho e a noite demora pacas para voltar. O verão nos estimula mesmo – mas cria também as distrações no caminho entre a vontade e a execução daquele projeto. “No verão, penso seriamente em fazer uma dieta, mas aí o desejo de tomar uma cervejinha põe tudo a perder”, confessa a professora de história da arte Paula Ramos.

Dispensar o carro

Aproveitar a luz natural e o clima ameno para andar a pé ajuda a desafogar o trânsito, faz bem ao coração e colabora com a redução de emissão de gás carbônico na atmosfera. “No verão, vou sem carro para o trabalho no turno da tarde e trago um sapato leve, uma sapatilha ou um chinelinho na bolsa. No final do dia, troco o calçado e caminho até minha casa. São cerca de 30 minutos, em que aproveito para relaxar, ouvir música e fazer planos. É uma espécie de meditação em movimento”, afirma a jornalista Liège Alves.

Eleger uma música

Todo ano tem uma músicatema do verão. Aquela que toca em todos os lugares, no quiosque da praia, no supermercado, em todas as rádios. Em geral, algo com um refrão que gruda como chiclete e você não sabe explicar por que está repetindo também. Mas dá para eleger seu próprio hit. E daí, para virar trilha sonora, pode ser um pulo. De Beach Boys a Los Hermanos, a escolha tem que ser natural e cheia de bossa.

Fazer nada

O verão é a época ideal para desligar a mente olhando para o céu, aposta a artista plástica Lou Borghetti. “Adoro me deitar sobre uma toalha no pátio e ficar olhando o céu, os desenhos que as nuvens vão formando, aquela sensação de infinito. Isso também é meditar”, filosofa.


Texto retirado da revista virtual: http://www.vidasimples.abril.com.br/

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